quinta-feira, 14 de outubro de 2010

R,

Relendo as últimas correspondências cheguei à conclusão de que foi legal Rush e Caetano figurando no mesmo post, sabia? Os dois, através da reinvenção, acabaram se tornando constantemente relevantes ao longo das décadas. Como você bem disse - e imagino que sim - a reinvenção de Caê vem de sempre e não só dos dois últimos. Assim como o Rush, que foi recriando seu próprio estilo e está aí, até hoje, lotando lugares enormes por onde passa, enquanto muitos contemporâneos do estilo estão falidos e velhos.

Cranberries não me pega, mas reconheço que há algo ali, principalmente nas que citou.

Mas, então, os musicais. Surfo, sim, me interesso, mas ainda como um iniciante, que comprou a prancha há pouco tempo. Gosto das coisas que envolvem um musical, principalmente a figura do compositor e o cuidado com músicas e arranjos, isso me conquista. Sem contar que Lloyd Webber é sensacional.

Fale do The Bad Plus. Sempre leio algo sobre eles, mas nunca cheguei a ouvir. Hoje o Air passou pelo Circo, gosta? Acho Alone in Kyoto uma pérola. Queria ter ido, mas daqui a pouco, à meia-noite, entro na briga por um ingresso do Macca.

No som, agora, entra Maria Gadú com coisas de sua ótima estreia. Ultimamente venho pensando que Gadú, por conta de sua Shimbalaiê tocando massivamente numa novela das 8, tenha, sem querer, entrado para o rol dos "chatos". Vejo gente por aí etiquetando sua música como chata, mas provavelmente sem escutar. Sem contar as associações equivocadas, na minha opinião, com Cássia Eller.

O que acha?

Abração,

F

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Neuma,

Sei que você não perguntou, mas digo que, entre Chico e Caetano, fico com o segundo. Dos dois, é o que sempre me intrigou e segue me intrigando musicalmente. Reinventando-se, como você disse -- e isso não é privilégio de seus dois últimos discos. Ouça Transa ou Livro, dois de seus melhores trabalhos, o primeiro de 1972 e o segundo de 1997, para entender o que estou dizendo. Ou Circuladô, de preferência o ao vivo, com o auxílio luxuoso de Jaques Morelenbaum.

Sobre sua avaliação de que a Banda Cê é "preguiçosa" ou "desleixada", discordo, mas compreendo que ela evoque isso. Roqueiro não gosta do rock de Caetano. Conheço um fanático por metal (não, não vou dizer quem é) que acha Pedro Sá uma farsa como guitarrista. Não digo que seja o seu caso. E não é, juro, aquele papinho babaca de "você não tem ouvido para entender Caetano", longe de mim. Mas é a impressão que tenho: quem gosta do bom e velho róquenrol tende a não ter saco para essa onda roqueira do baiano.

Você fala de Rush, e... você me amaldiçoaria se eu dissesse que meu conhecimento (e, para ser franco contigo, meu interesse) por Rush se resume a Tom Sawyer? E, mesmo assim, por causa do MacGyver...  Aliás, falando em Tom Sawyer, procure a versão lisergicamente jazzística do trio The Bad Plus, conhecido por seus covers jazzy de hits como Everybody Wants to Rule the World, Smells Like Teen Spirit e Heart of Glass. Falo mais sobre a banda na próxima correspondência, se te interessar.

Ontem fui ver Cranberries. Dolores O'Riordan rulez, não é assim que dizem? Banda azeitada à beça, cheia de hits -- Linger, Ode to my Family, Salvation, Zombie. Ali pela meiuca do show, eles passeiam por algumas canções menos conhecidas, e o show dá uma ligeira esfriada no que diz respeito à resposta do público. Mas eles seguram a peteca legal. Bela apresentação.

Devo ver Cats, o musical de Andrew Lloyd Webber, no fim de semana. Taí algo que nunca soube: musical da Broadway está entre as ondas que você surfa? Eu tinha interesse zero, mas fui convertido por minha mulher. Se ela fosse roqueira, talvez hoje eu gostasse de Rush.

Abrá,

Raphael O'Riordan

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Meu amigo, Rafael Teixeira, essa pergunta não se faz.

Mas, hoje, fico com Chico e elimino Caetano. Sou um pouco distante de Caetano (ainda). Sempre tive uma relação mais forte com os mineiros do Clube, depois cheguei na Bossa Nova. Caetano e Gil, só pra colocar os dois aí juntos, ainda chegam a mim pelas coisas básicas. Nunca fui a fundo, por isso minha escolha. Agora, reconheço, sim, quando você diz da relevância de Caetano. Acho que ele, realmente, é o que desperta ainda muitas reações e opiniões quando lança - ou fala - algo. Mais do que qualquer outro artista brasileiro.

Confesso a você, meu caro, que, mesmo sendo do rock de carteirinha, não levo fé nessa onda dele. É boa mesmo? Sei que é muito elogiada, isso eu sei. Mas quando ouvi aquela faixa Rocks, achei ruim. Ali, de primeira, depois não voltei mais.

Aqui dei uma pausa no texto, fui ao youtube e assisti ao video, que continua sem me pegar. Aquele baixista gosta mesmo de estar ali no palco? Tenho minhas dúvidas.

Alguma coisa não me agrada nesses músicos. Talvez o fato de me remeterem a um rock que não gosto, de execução meio preguiçosa, desleixada, não sei bem. Eu gosto do rock bem tocado, rico, e com toques de virtuosismo quando a música pede. Acho que há uma necessidade de elogiar essa turma da Banda Cê. Eles fazem parte da Do Amor, não é? E um dia desses na televisão, Nina Becker tocava uma música de sofrer também com eles de banda de apoio.

Mas voltando a Caetano...

Valorizo a reinvenção, acima de tudo. Vejo a nova fase de Caetano positiva por esse aspecto da novidade, de sair da zona confortável, de se colocar num formato banda e mudar o som, fazer uma coisa com vida nova. Sim, esse ponto é totalmente a favor. E ninguém tira dele. Que outros poderiam fazer o mesmo? A renovação de Caetano vale. E tenho curiosidade de ver o show.

A coisa do rock bem tocado - e também da reinvenção - me leva, inevitavelmente, ao show de domingo passado, quando Rush deu uma aula de música na apoteose. São três - Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart -, mas fazem um som de muitos, você deve saber. Geddy usa e abusa de teclados e toca baixo como ninguém, beirando o fusion, e, em muitos momentos, com os pés aciona efeitos, baixos programados etc. Neil apareceu já na década de 70 como um dos maiores bateristas do rock e ainda é.

Pausa para uma curiosidade: Neil, na década de 90, com décadas de Rush nas costas e nada mais para provar, resolveu que deveria voltar a estudar e foi fazer isso com Freddie Gruber. Não é sensacional? Hoje, em seus solos ao vivo, há espaço para uma jam com uma big band de jazz já pré-programada, no melhor clima Gene Krupa e Buddy Rich -- recomendo uma navegada no youtube atrás dessas coisas, você que é do jazz.

Alex Lifeson, que completa o trio, é único. Sabe muito bem como ser um guitarrista de mão cheia e equilibra bem a balança sonora com os outros dois monstros. O Rush faz o uso perfeito da virtuose, que é sempre a favor, sempre para a música, sem exibicionismo gratuito.

E aí você olha para os lados e tem alguém fazendo aquela virada de bateria ou aquele groove de baixo ou imitando aquela voz aguda do Geddy. É bonito de se ver.

Um abração,

Ferdinando Nóimaier

sábado, 9 de outubro de 2010

Neumayer, meu chapa, senta que lá vem história.

Gotan Project foi hipnotizante. O trio titular, você sabe, tem Philippe Cohen-Solal nas guitarras e programações, Eduardo Makaroff no violão e Christoph H. Mueller nas programações (Mueller, em alguns momentos, ficava brincando com um joystick de Nintendo Wii. Acho que era só onda, não servia para nada). Com eles no palco, um pianista, uma violinista, um bandoneonista e uma cantora lindíssima, que googando descobri ser Claudia Pannone, argentina. Procure. Afora mexer com a libido masculina, canta bem -- e, o mais importante, sua voz se encaixa na sonoridade do Gotan, se integra a ela, algo como o timbre de Dolores O'Riordan para o som do Cranberries (aliás, verei-os na próxima terça, mas isso é outra história).

Um telão no fundo exibia vídeos, muitas vezes entre o onírico e o surrealista. Em alguns momentos, as imagens interagiam brilhantemente com a música, como quando uma dupla de rappers no vídeo cantava, escoltados pelo som que vinha do palco. O visual, aliás, era duca, com luzes meio floydianas, como que se comunicando com a música, mas sem exageros, quase minimalistas. No fim, Claudia convocou a plateia a ficar de pé e se aproximar do palco para dançar (aquele momento em que quem pagou uma nota pela pista VIP, justamente para ter a melhor visibilidade, se emputece...). Foi atendida, e deram até um segundo bis.

Mas o que me impressionou mesmo foi Caetano Veloso, ontem, no último (e ótimo) show da turnê de zii e zie. Quando Caê virou Mick Jagger? Em que momento isso se deu? Ou será que ele sempre foi, e eu é que não percebi? O mundo devia estar lá ontem -- acho que só não tinha mais gente porque Bon Jovi e Dave Matthews Band tocavam no mesmo dia. Filas homéricas na porta. Noventa por cento gente por volta dos 35 anos, gente que ainda fazia cocô nas fraldas ou sequer era um projeto de ser humano quando Caetano perguntou, aos berros, se "é isso que é a juventude que quer tomar o poder".

Hoje, ele faz passinhos meio Beck e dancinhas meio Deborah Colker -- quem viu ele cantando Objeto Não Identificado sabe do que estou falando. Faz mash-up de Billie Jean e Eleanor Rigby. Toca para plateias que cantam, em altos brados, desde canções como Irene, absolutamente desconhecida e periférica na obra de Caetano, até Odeio, do último disco, quando ele se associou aos jovens Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado, passando pelos hits incontestáveis.

Isso não é uma crítica da minha parte. É uma constatação, apenas. Com todas as bobagens eventualmente proferidas, acho Caetano relevante pra cacete, na música e para além dela. Pode não ser o melhor. Mas talvez seja o mais relevante, entende? Há uma expectativa em torno do próximo disco de Caetano (qualquer que seja este próximo, estou falando também dos discos anteriores, quando eles então seriam os próximos), como creio não haver em torno de nenhum outro artista brasileiro. Me interessa saber o que ele faz ou o que ele acha. As pessoas querem saber. Nem que seja para falar mal e para dizer que Caetano é um idiota.

Certa vez, fui desafiado por um amigo a uma escolha aparentemente inviável: sob a mira de uma arma, quem você escolheria para ser eliminado da história da música brasileira? Chico Buarque ou Caetano Veloso? E você, Fernando Neumayer? Quem você escolheria? Porque aqui, com diziam naquele programa, o final... você decide.

Um abraço caetânico,

Yo.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Meu caro,

Sim, você me convenceu com a questão da Ivete. Foi tudo no ponto e, mesmo que eu ainda ache meio mico tudo isso, foi certeiro. Sim, coerente com o crescimento da artista e toda essa coisa que a envolve. E continuo a concordar com a sua carta. Certamente a questão para o meu pai foi o mood, esperou uma coisa e viu outra. Sem contar que não é por dentro do trabalho de Mehldau, mas gostou independente do piano solo em quase duas horas.

Tenho implicância com o Vitor Araújo justamente pela questão do personagem vir antes do artista. Camisa surrada+calça jeans+all star+um repertório que passa por Chico e Radiohead.

Não é muito pronto isso?

Aliás, logo Chico e Radiohead, que considero artistas âncoras para quem quer mostrar/traçar uma personalidade. Ouvir Radiohead faz fulano cool. Chico também. Juntar os dois parece jogada de mestre. Não falo aqui da música deles - quem sou eu? -, mas algumas coisas assim me distanciam de um artista. O Radiohead, no caso. E este povo todo que aaama Chico, escuta mesmo Chico? Tenho um pé atrás com isso.

Estou ranzinza, reclamão, é melhor você falar do Gotan Project de ontem. Como foi?

No fim de semana, tem Rush. Vou trazer impressões, já que a música aqui é além das fronteiras.

Abração,

Fernando, el roquero

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Saudações, Neumayer,

Não sei se foi uma bola fora esse show da Ivete nos istêites. Depende de quem você considera que chutou a bola. Deu falatório, matéria na imprensa. Muita matéria. Gerou -- como é que eles dizem, mesmo? -- mídia. Vai sair um DVD, se não me engano, que vai vender à beça, pode estar certo. Acho coerente com a trajetória da Ivete, a coroação de um percurso espetacular (no sentido de "espetáculo", de "espetaculoso", digamos assim -- os trios elétricos, as multidões, a adoração dos fãs, as campanhas publicitárias, a perseguição dos paparazzi, os shows com dezenas de trocas de figurino). Você fala em "reconhecimento quase forjado". Bem, talvez seja. A pergunta é: quem se importa? Certamente não aquelas milhares de pessoas que entupiram o lugar. Escreva o que eu vou dizer: o que será lembrado, no futuro, é que Ivete Sangalo está no panteão dos artistas brasileiros que se apresentaram no Madison Square Garden. No que diz respeito à manobra, foi perfeito.

Brad Mehldau deve ter sido soberbo, mas entendo o seu pai. Às vezes, um show simplesmente ótimo captura melhor do que um show soberbo. Não sei se é a questão do piano solo. Rufus Wainwright fez um show de piano solo arrebatador na Sala Cecíla Meireles em 2008. Acho que é uma questão de mood, como diriam os gringos.

Vitor Araujo, conheço pouco. Mas é talentoso, quem negará? Mas talvez -- ênfase no talvez -- seja o tal do soberbo que não me captura. Não sei. E talvez tenha se apegado ao personagem que criaram para ele, o prodígio adolescente do piano que toca de All Star no Municipal e mistura Villa-Lobos com Radiohead. Tenho uma certa birra com esses personagens que antecedem a música que fazem.

Racionalizei muito, não? Prometo que a próxima correspondência será mais visceral. Música é alma, pombas.

Hoje, verei Gotan Project. É só o que toca nas ruas de Buenos Aires, muito mais do que tango tradicional. Gosto à beça. Y usted?

Em tempo: entrevistei Ney Matogrosso, mas não posso contar muito antes que a matéria saia. Só digo o seguinte: o cara é magnético até no sofá, à paisana.

Bração,

Rafael, el tanguero

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Rafael,

Verdade isso que você disse sobre o Mario Adnet. O fato dele ser responsável por bons trabalhos, além dos que faz com grandes nomes, já é motivo para certa visibilidade. Sou um exemplo de uma pessoa que desconhece sua obra. Minha relação com Mario é, apenas, através das coisas de Moacir.

Sim, sabemos que a visibilidade de uma Ivete é mesmo absurda, mas você tocou no assunto do show dela no Madison Square Garden e estava pensando nisso um tempo atrás. Achei uma bola fora. Não tenho qualquer ligação com sua música, mas não vejo nada de positivo em colocar um bando de brasileiros da grande maçã e redondezas num show lá, além dos vips da Globo e voos fretados daqui. Sinceramente, é um reconhecimento calculado, quase forjado, não? Ou estou falando besteira?

A meu ver, foi um show para brasileiros. Sim, no tal lugar que já recebeu artistas consagrados e blá blá blá. Não me convenceu. É diferente de um show aclamado pelo público local. Tem algo aí. Concordas? Não coloco aqui a música dela em questão, mas, sim, a manobra.

Não fui ver Mehldau, perdi. Meu pai, fã de jazz, foi e não curtiu tanto. Assim, gostou muito, mas achou longo e cansativo em alguns momentos. E eu entendo o ponto dele. Foi achando que seria um trio e assistiu 1h40 de piano solo. Sem contar que, de certa forma, o Irvin Mayfield ainda ecoava em sua cabeça, certamente. Fiquei sabendo que Mehldau tocou Martha, do primeiro de Tom Waits, dias antes, em SP. Deve ter sido especial.

Mehldau e seu repertório - a coisa de visitar Soundgarden, por exemplo - me lembra Vitor Araujo, aquele pianista jovem, que segue pelo mesmo caminho de reler seguidamente Chico e Radiohead. E fora isso, comporta-se como o Jamie Cullum, batucando no piano, ficando em pé no banco, vestido igual! Como se juntasse o repertório de Mehldau ao comportamento de Cullum. Venderam essa "originalidade" de Vitor na época. É meio enganar, não?

Abração,

F

domingo, 3 de outubro de 2010

Ave, Neumayer,

Como você bem colocou, a questão do reconhecimento de certos talentos no Brasil é antiga. Mas, creio, sempre pertinente. João Gilberto, por exemplo. Só um tonto de marca maior acredita realmente que o sujeito é uma unanimidade. Sempre que leio uma matéria sobre João na internet, vou lá no pé da página, em busca dos comentários dos leitores. É uma tragicomédia sem fim, um monte de idiotas babando ressentimento.

Sempre que falo de João Gilberto, me lembro de uma matéria que escrevi da última vez em que ele veio tocar no Rio. Entrevistar o sujeito, claro, era impossível. Fui, então, atrás de gente que o conhecia -- Miúcha, João Donato, Daniel Jobim, Roberto Menescal, Moogie Canazio, Ruy Castro, Carlos Lyra, Elba Ramalho (você ainda não era o assessor), Bebel Gilberto (que não me atendeu), Caetano Veloso (idem)... Um dos melhores papos foi com o porteiro do prédio onde ele mora. Me deu uma boa ideia da simplicidade do homem por trás do artista, em que pesem as manias. Enquanto eu conversava com o porteiro, João saiu de carro pela garagem. Daria para correr escada abaixo e tentar trocar duas palavras com o mito, mas o porteiro só soube -- logo, só me avisou -- depois que ele já havia saído.

Voltando à vaca fria, me ocorre que o próprio Mario Adnet mereceria um reconhecimento maior por seus trabalhos próprios. Receio que, para o bem e para o mal, ele tenha tido a sua imagem atrelada ao do grande artista (que indubitavelmente ele é) por trás de discos baseados em outros compositores: Gershwin, Jobim, Baden Powell e Moacir. Sem Mario Adnet, eu certamente teria demorado mais para conhecer Moacir Santos, e devo isso a ele, sem dúvida. E, assim como eu, há outros. Mas há um Mario com existência independente, para além de Ouro Negro ou Afrosambajazz, o excelente disco que ele gravou com músicas de Baden.

Veja, por exemplo, o último disco do Mario, O Samba Vai, lançado há pouco. Pode não ser o disco do ano, mas merecia muito mais reconhecimento do que realmente teve na imprensa. E não me refiro a mais estrelas na cotação da crítica, porque isso é uma bobagem. Falo da questão meramente jornalística que é dar atenção a um dos grandes nomes da atual música brasileira, lançando o seu primeiro disco de inéditas, de composições autorais, e cantando, depois de anos se dedicando a obras de outros. Esqueça a música. Antes mesmo dela, há (ou deveria haver) um interesse jornalístico aí. Não?

Wynton Marsalis, em pessoa, ligou para o Mario e convidou-o para tocar no Lincoln Center, que lotou por duas noites. Imagine, toca o seu telefone e alguém fala: "Aguarde um instante, mr. Marsalis vai falar com o senhor." Eu desligaria, achando que é trote. Ivete Sangalo cantou em Nova York. Agora, compare. Não, não quero ter a pretensão de achar que Mario Adnet, um dia, terá o mesmo espaço na mídia que Ivete Sangalo. Acho até que, de certa maneira, é bom que não tenha (podemos desenvolver esse tópico, se quiser). Mas a desproporção é absurda, muito além do que seria esperada. É triste.

Em tempo: aguardo suas impressões sobre Brad Mehldau, que não vi (estava chacoalhando ao som de alguma coisa de disco music numa festa de casamento).

Ave,

Rafael

sábado, 2 de outubro de 2010

Grande Rafael,

Obrigado pelo convite, em primeiro lugar. Vamos dar início à nossa conversa musical. Acho difícil, sinceramente, que o filme de Louis venha, mas poderia vir com a trilha embutida, né? Será que não vai rodar o mundo assim?

Essa história do Ouro Negro, via Marsalis e Adnet no Lincoln Center, lembrou-me o começo da minha história com Moacir Santos, em 2006. Em abril, fui assistir Wagner Tiso, no Canecão, e na mesa eu estava acompanhado de amigos, desconhecidos e - que sorte - Milton Nascimento. Ainda antes do show, no telão, a casa anunciava apresentações dos próximos dias e, entre elas, Moacir Santos com o show Ouro Negro.

Alguém na mesa perguntou a Milton: "Bituca, quem é Moacir Santos?".

Não lembro o que Milton respondeu, mas sei que, dias depois, eu descobriria a música de Moacir justamente pela brilhante voz de Milton em Navegação, no cd idealizado por Adnet e Zé Nogueira. Tudo mudou com aquilo e comprei o que vi pela frente de Moacir.

O tempo passou e alguns meses depois, em julho, lembro de meu pai me ligar falando que Moacir havia subido. Àquela altura, Moacir já estava no meu altar, junto com o próprio Milton e mais Stevie Wonder, Ennio Morricone, Peter Gabriel e outros. E eu só me perguntava: quem era esse Moacir antes? Ninguém conhecia esse artista fenomenal com nome de jogador de futebol? Como isso acontecia? O trabalho de Mario Adnet, Zé Nogueira e os músicos envolvidos para mudar isso foi louvável.

Sei que o papo é batido, de décadas, aquela coisa de vida lá fora e falta de reconhecimento no Brasil, mas é recorrente, não tem jeito. Minha monografia partiu daí e passou por gente como Newton Mendonça. Uma coisa meio dos esquecidos. E foi prazerosa. Mas perdi o concerto no Canecão, com o mestre presente. Lembrar disso, é de matar.

Um grande abraço,

F

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Fernando, meu caro,

Como autor do convite, achei que cabia a mim a tarefa de inaugurar essa troca de correspondências. E começo por uma notícia que vi justamente no seu blog, sobre o filme contando a história da infância do Louis Armstrong. Filme mudo com Wynton Marsalis tocando a trilha sonora. Como alguém não pensou nisso antes?

Pelo que vi no fim do trailer, as datas de exibição foram em agosto. Entrei no site oficial e não achei uma agenda. Mandei um email para o contato que havia disponível no site, perguntando se havia planos para dar continuidade à turnê. Ainda não me responderam, mas não nutro esperanças de que o filme venha para o Brasil. Aliás, me pergunto quando o Wynton Marsalis vem tocar aqui, com ou sem filme. Temos recebido uma turma boa nos últimos tempos -- Irvin Mayfield o mais recente --, mas o hômi não aparece.

Não faz muito tempo, Marsalis levou Mario Adnet para tocar o disco Ouro Negro -- que você tanto gosta -- lá no Lincoln Center. Conversei rapidamente com o Mario para uma matéria que fiz ainda na época em que trabalhava no Globo, e ele me disse que foi uma catarse. Posso calcular. Tivesse nascido lá fora, Moacir Santos teria sido um Duke Ellington, talvez maior do que Duke. Marsalis podia compensar o favor e vir tocar aqui.

Abraço,

Eu