terça-feira, 2 de novembro de 2010

Hart,

O jazz é um terreno para ser explorado infinitamente, não é? Gosto de pensar que sou um turista, ainda meio perdido, sem saber para que lado ir, mas já com algumas referências. Você falou de Time Out e acho que seria o de número 16 na minha lista. Lembro quando meu pai colocou o cd pra tocar e Blue Rondo a la Turk me deixou tonto com aquele tempo. Na época, eu estava de cabeça no rock progressivo justamente pelos tempos e o virtuosismo, e meu pai queria me mostrar aquilo em outro mundo. Pirei justamente na coisa estudada, que você falou. Depois viraria fã também de Paul Desmond, principalmente pelos seus trabalhos ao lado de Jim Hall, gosta?

A minha iniciação no jazz veio através justamente de meu pai, que sempre escutou. Com ele me acostumei ao estilo e entrei de cabeça nessa coisa de comprar cds. Ele sempre comprou muito, desde os vinis. Hoje, não mais, prefere mesmo os arquivos de mp3. Sua coleção de LPs está aqui atrás de mim, numa estante, e é 100% jazzística. Ele nunca foi muito de música brasileira. Nem minha mãe. Aqui em casa a música sempre foi mais internacional que nacional. Dos poucos nacionais, lembro de um que marcou: As Canções Que Você Fez Pra Mim, da Bethânia cantando Roberto. Escuto sempre.

Mas voltando ao jazz, sinto que comecei mesmo a caminhar com as próprias pernas depois de Kind of Blue. Foi o álbum que me tirou de um mundo e levou a outro. Miles virou um desses do altar. E abriu as portas. Conheci pouco depois a música de Mingus, e ainda não tenho o que citou, embora saiba que é um de seus grandes discos, mas chego lá. Música requer paciência também, concorda? Ainda mais nesse mundo que, em questão de minutos, podemos downloadear a discografia de fulano. A oferta é muito grande e a melhor coisa, nesse caso, é saber que tem muita, mas muita coisa ainda pela frente. Penso assim.

Ao som de Bewitched, Bothered and Bewildered, com Paul Desmond e Jim Hall, farei uma pergunta inevitável: ainda compra cds?

E conte como começou no jás.

abraço,

Rodgers.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Fernandix, guerreiro,

Teria que pensar um pouco para fazer uma listinha dessas. O que me lembro, de cara, é do primeiro disco não infantil que ganhei: We Are the World. Sim, aquele dos artistas contra a fome na África, precursor desses festivais beneficentes que a gente vê por aí hoje. Puta sucesso na época. E, de alguma forma, um típico one hit wonder, já que nenhuma outra canção do disco vingou. Me lembro que a música tocou no rádio do carro onde estávamos eu, meu pai e minha irmã. E eu comecei a, digamos, cantar -- num embromation louco, já que eu conhecia a melodia, mas não sabia a letra. Até hoje não sei se meu pai ficou encantado ou com peninha. Mas o fato é que me deu o LP. O disco não vinha com a letra, e segui cantando no embromation. Rárá. Já o primeiro disco que comprei, com dinheirinho juntado de mesada, foi All the Best!, coletânea de hits do Paul McCartney. Acho que comecei bem.

Entre os discos de jazz, aí sim, acho mais fácil apontar os que me abriram a cabeça. Ou pelo menos os primeiros a me abrir a cabeça, os introdutórios. Kind of Blue, sem dúvida. Em uma matéria que fiz pra Piauí, acho que você leu, entrevistei rapidamente Jimmy Cobb, o baterista do álbum. Liguei para a casa dele, me atendeu uma mulher, que presumo ter sido a senhora Cobb. Gaguejante, perguntei se mr. Cobb estava em casa. Ele me atendeu gentilmente, e tivemos um papo curto. No final, perguntei para ele por que, entre tantos discos revolucionários de jazz, calhou de Kind of Blue ser o mais expressivo, o mais famoso. Ao que ele me respondeu: "Se eu soubesse a resposta pra isso, poderia morrer hoje." É o único disco que tenho em várias versões: o CD simples; o CD comemorativo de 50 anos com um documentário em DVD; e a caixa comemorativa de 50 anos do disco, com CD, fotos e até um vinil.

Bird and Diz, de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, me apresentou para valer à energia do bebop, pelo que sou gratíssimo, porque acabou sendo a minha porta de entrada para todo o resto. At Newport 1956, o disco ao vivo de Duke Ellington no festival de Newport, me introduziu ao mundo do Duque (e das grandes orquestras) em um momento em que eu estava empenhado em devorar bebop -- isso sem falar no estupendo solo do saxofonista Paul Gonsalves, em Diminuendo and Crescendo in Blue, com seus 27 choruses. Time Out, de Dave Brubeck, me fez prestar mais atenção no lado estudado, mas nem por isso menos festivo do jazz. Empyrean Isles, de Herbie Hancock, por conta da faixa Cantaloupe Island, regravada em um hit hiperultramegaestourado pelo grupo US3, me fez ver que o jazz não é um "que", mas um "como". The Complete Ella Fitzgerald & Louis Armstrong, coletânea de tudo que ambos fizeram juntos na Verve, bem... é Louis e Ella, não preciso dizer mais nada. E há John Coltrane, com Giant Steps. E Billie Holiday, com Lady in Satin. E Charles Mingus, com Mingus Ah Hum -- que, enquanto escrevo, coloquei pra tocar no iPod, e Better Git It In Your Soul desce com toda a sua potência. Conhece, nêgo? Se não, conheça.

Qualquer dia conto como comecei a gostar de jazz. Agora, esta correspondência já se faz longa.

Bração (e vote consciente),

Rafaelix, carregador de menires.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Rafaellus,

A sua resposta para a Gadu foi realmente boa. Quase me convencendo. Logo eu, um fã de versões inusitadas. Aliás, um fã das versões, num modo geral, não sou dos puristas. Eu tive uma namorada, beatlemaníaca, que não podia ouvir uma versão para os fab four. Logo eles, que têm muita coisa revisitada por aí, em todos os estilos, de todas as formas, muitas ótimas. Marvin Gaye com Yesterday, Nina Simone com Here Comes the Sun, para ficar com duas, que vieram à mente, ao acaso.

Sim, Lucy Woodward bateu bem, muito bem. De início, aquela guitarrinha que abre Ragdoll é irresistível, assim como a ginga sexy de Lucy, que dá direção ao álbum. Mulheres que conseguem colocar esse charme no canto merecem atenção, e muito mais. Too Much to Live For também é ótima.

Isso de coisas da pré-adolescência, que continuam nos acompanhando, me leva a um dos últimos posts lá no Som Imaginário. Comecei a falar dos 15 álbuns que, de alguma forma, foram marcos na minha linha do tempo. O primeiro foi... Iron Maiden, lá em 97.

Já parou para pensar nos seus?

Não são os melhores, mas aqueles que marcam algo, marcam mudanças. Deixo aqui os meus, embaralhados, sem ordem de chegada.

Vamos lá, enquanto pensa por aí.

Milton Nascimento & Lô Borges, Clube da Esquina
João Gilberto, Chega de Saudade
Michael Jackson, Thriller
Metallica, Metallica (aka Black Album)
Iron Maiden, Fear of the Dark
Dream Theater, Awake
Nina Simone, High Priestess of Soul
Miles Davis, Kind of Blue
Rolling Stones, Exile on Main St
Led Zeppelin, Houses of the Holy
Peter Gabriel, So
Moacir Santos, Coisas
Queen, A Night at the Opera
The Beatles, Abbey Road
Pain of Salvation, The Perfect Element

Um abraço,

Fernão da Costa

sábado, 23 de outubro de 2010

Franz Ferdinand,

Não sei como seria um show da Amy. Mas pagaria para ver -- acho que seria apenas uma questão de, se ela descesse do palco, não ficar muito próximo, para não levar um murro nas fuças... O que me lembra Lauryn Hill, não pelo soco na cara, mas pelos shows erráticos que fez aqui no Brasil. Seu disco Miseducation of Lauryn Hill é ótimo, e eu sempre quis vê-la no palco. Da primeira vez que veio, há alguns anos, foi o caos: atraso inaceitável, postura basbaque, acessos de estrelismo. Por sorte, acabei não indo. Da segunda vez, este ano, quase fui, mas tive um imprevisto em cima da hora. Depois, soube que o show tinha sido menos pior, mas, ainda assim, muito ruim, com Lauryn fazendo um esforço gigantesco para fazer o que ela chamava de "cantar". Melhor ficar nos discos, em certos casos.

A sua pergunta sobre Maria Gadú é fácil de responder: vale tudo, sim. Desde que benfeito (horrível escrever isso pelo Novo Acordo Ortográfico...). Posso ser franco? Hoje, acho a versão que Maria Gadú fez para Baba a coisa mais interessante daquele disco. Antes uma Kelly Key melhorada do que um Milton Nascimento piorado -- que é o que provavelmente ela faria se regravasse Milton. Afinal, Ben L'Oncle Soul não pode gravar Barbie Girl, do Aqua? Maria Bethânia não pode gravar É o Amor, de Zezé di Camargo e Luciano?

Sobre as babas, não me entenda mal. Eu adoro muitas. Mas alguém, falando sobre comida, certa vez disse que aquilo que você gostou até a pré-adolescência vai continuar gostando até morrer. Acho que o mesmo vale para música. O que pra mim não desce são babas ouvidas depois que virei burro velho. No meu iPod, por exemplo, tem Duran Duran, tem até (céus!) Jon Secada!

Continuo ouvindo Lucy Woodward obsessivamente. Mas tive que comprar outro fone -- o que tinha, comprado numa loja da Apple, chique de doer, ficou com o áudio do lado esquerdo mudo. Maldito Steve Jobs e suas quinquilharias. E você, o que achou de Lucy?

Bom fim de semana,

Rafael, tartaruga ninja.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Professor,

Sim, o Maxwell é baba se comparado aos outros que estamos estudando. Na hora que coloquei no texto, atentei para o detalhe. Mas ele é ótimo. Mesmo. Eu tenho uma queda pelas coisas baba, admito, sempre tive, até o Bon Jovi toca no meu som. Mas antes de sair fora do Maxwell, pedirei só que escute duas músicas: Bad Habits e Phoenix Rise. Respectivamente, abertura e encerramento do último álbum. Na primeira, preste atenção em como a música evolui com os sopros e o arranjo. Mas sim, concordo, novamente, ele se aproxima de uma onda açucarada.

Como será um show da Amy hoje em dia? Não sei. Fico com um pé atrás. Mas tudo indica que teremos algo mesmo em janeiro. Ela já confirmou, parece. E o Mayer Hawthorne um tempo atrás colocou no twitter que vinha para o Brasil. Tudo aponta para um festival de soul. E seria um presente.

E ainda no soul tem o último do John Legend com auxílio luxuoso do grupo The Roots. Acabou de sair e tira o Legend de seus cds melosos e medianos para deixá-lo à vontade no território da black music com covers lado B. É o Get Up, confira. A banda The Roots tem pressão e o punch, que você disse faltar a Maxwell.

Aliás, essa coisa de baba, me lembrou de um episódio recente com Maria Gadu. Esbarrei com ela numa festa, já na madruga, e, depois de elogiar o disco de estreia, perguntei o motivo de gravar Baba Baby, da Kelly Key. Perguntei numa boa, mas acho que ela não gostou muito, claro. Ironicamente, a festa era na casa de Milton Nascimento, um daqueles gigantes...

E que é fã dela.

Kelly Key não dá. O que você acha? Vale de tudo nesse mundo?

Saludos,

Ferdinando

ps.: fico devendo uma lista dos pé-na cova. Por enquanto, Morricone e Lonnie Smith. Na verdade, acho que não foram muitos. Dos seus, queria muito ter visto Bacharach, Wayne Shorter e Aznavour.

ps.: vou atrás da cantora que indicou. Principalmente depois dessa descrição de jazzy, bluesy, sexy, broadway, trilha. Gosto de quando a coisa fica meio mega. Ali no limite.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Véio,

Não conheço Morricone como gostaria. Esse concerto dele aqui no Rio, não faz muito tempo, era um que eu gostaria de ter ido. Era a chance de conferir seu trabalho ao vivo, de ver o homem -- que não deve voltar ao Brasil. O mesmo vale para Paul McCartney, que, ao que tudo indica, vou perder, mesmo. Daqueles mitos que já passaram há muito dos 70, vieram ao Brasil e muito provavelmente não voltarão, fico feliz de ter visto alguns: Burt Bacharach, Charles Aznavour, B.B. King, Sonny Rollins, Wayne Shorter, Kurt Masur... Até que a listinha não faz feio. Qual é a sua listinha dos pé-na-cova?

Maxwell eu já havia escutado uma coisa ou outra, e não havia me fisgado. Sei lá, me soava como um Andrew Lloyd Webber da black music. Lendo a sua correspondência, fui atrás dele no YouTube, e meio que confirmei minhas primeiras impressões. É baba demais pros meus ouvidos. O cara é quase um branco! Não digo que não tenha talento. É um problema de repertório, na minha opinião. Será que estou ouvindo as faixas certas? Falta punch. Sharon Jones é outro naipe, tem aquela coisa negroide que pulsa. Assim como Amy Winehouse, uma das melhores coisas que a música pop revelou nos últimos anos. Se estragou horrores, é difícil ver uma carreira a ser seguida ali (só se a carreira for de pó...). Mas quem sabe? Parece que ela vem ao Brasil em janeiro. Soube, de fonte altamente fidedigna, que viria com Mayer Hawthorne.

Baixei hoje Lucy Woodward, cantora. Não conhecia nada. Está em seu terceiro disco, Hooked!, o primeiro pela Verve -- o que é, por si só, um sinal de qualidade, considerando a gravadora que é. Foi este que eu dounloudeei. Não escutei seus primeiros discos, mas parece, pelo que li, que seguiam numa seara mais pop. O que sei é que este desce que é uma beleza. Tem uma coisa meio jazzy, meio musical da Broadway, meio cabaré, meio bluesy, meio sexy (procure a capa para ter uma noção), meio trilha sonora, sem parecer esquizofrênico, manja? Ragdoll, a primeira faixa, que toca neste momento nos fones, me pegou de jeito. Além do que, a moça é uma graça. Look for Lucy e diga-me o que acha. Dá pra escutar tudo no site oficial dela.

Fui,

Tex-Mex

PS: maneiríssimo o livro do Dahmer. Valeu mesmo.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Boyle,

Uma pena ter perdido a Jazz Orchestra na última segunda-feira. Meu pai ligou dizendo que havia sido uma apresentação ótima e até melhor que o Mayfield, mas aí é coisa de quem acaba de sair de um show, ainda na vibe, você sabe, dê um desconto. Aproveitando: vou registrar aqui a constante busca - ainda sem sucesso - pela composição de Irvin Mayfield para o pai, que vimos no Municipal. Não há como não ter aquela música em casa, no ipod, no celular, onde for. Sem registro dela, não dá pra ficar. Quem achar, avisa.

Já ouvi falar muito dessa trilha de Miles, não tenho, mas me lembrou uma que gosto muito - composta também por ele, em parceria com o Marcus Miller -, a de Siesta, filme de 87, que nem vi, mas achei o LP num desse sebos e bateu bem, viajante. O mundo das trilhas me fascina, vou te dizer, sobretudo, aquelas grandiosas, orquestradas...

Ennio Morricone é um dos que está no meu santuário. Quando lembro do concerto no Municipal uns anos atrás, parece mentira. Foi num festival chamado Música em Cena, que não vi outras edições acontecerem, o que é uma pena, pois tinha uma proposta muito interessante, de filme + música. Mas Ennio é grande, daqueles gennios. Ontem mesmo vi, pela décima vez, Era Uma Vez no Oeste, obra-prima de Sergio Leone, que tem pérolas muito inspiradas por Ennio.

Ah... o novo soul, estamos ficando escolados. Meu tocador - não, sem iPod, ainda não colaboro com a receita de Steve Jobs - também está negro. Mayer Hawthorne, Raphael Saadiq, Ben L'Oncle Soul, estamos juntos nesse grande elenco. Fui atrás da sua dica do Aloe Blacc e, meu caro, gostei muito. Está soando muito bem. I Need a Dollar é de deixar no repeat - você também tem essa mania?

Na mesma praia, ando ouvindo Sharon Jones & The Dap Kings. Uma super cantora de soul, já com seus 50 e poucos anos, mas que foi descoberta há pouco tempo. A banda dela foi emprestada para o Back to Black, de Amy. Vale. Outro que sempre ouvi é o Maxwell. O primeiro álbum, Urban Hang Suite, é espetacular, rebobina aquela coisa Marvin Gaye com muita classe.

Vá atrás de Maxwell, veja o que esse cara faz com a voz em seu MTV Unplugged. O último, da volta dele pro mercado, Black Summer's Night, também é imperdível. Assim como os outros, valoriza muito a coisa da voz, do canto, como você tem destacado. Eu, baixista que já fui um dia - hoje os instrumentos são mais decorativos -, sempre tive uma queda fortíssima pela black music.

Grande abraço,

J Brown

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Nobre,

Cats foi chato. Huumm... Me corrijo: Cats é chato. Acho que esgotei minha cota de Andrew Lloyd Webber. Quando vi O Fantasma da Ópera, anos atrás, achei um barato, grandioso, magnânimo e tals. Hoje, com alguns musicais nas costas (não muitos, hein!), relembro e a única coisa que me inspira é um bocejo. No caso de Cats, é uma pena, porque é muito talento direcionado para uma coisa... chata. O elenco canta e dança que é uma barbaridade. A direção de cena é impecável, o cenário é luxuoso, a iluminação é precisa. O que não funciona é o que antecede tudo isso, ou seja... Andrew Lloyd Webber. A história é inexistente, as músicas são banais. Pfui... Mas, o que se há de fazer?, o musical está em cartaz há quase 30 anos. Alguém vai me apedrejar já, já, por dizer essas barbaridades. Miau!

Jazz Orchestra of the Concertgebouw foi ducaralho, com todo o ensemble que faltou a Irvin Mayfield (questão de estilo, não de melhor ou pior). Tocaram até Ivan Lins no bis. Pena que você não pôde ir.

Você me pergunta sobre trilhas de filmes. Não sou um pesquisador, não conheço nada a fundo -- o que é uma pena, porque há compositores soberbos nesta área --, mas gosto de algumas coisas. Uma grande trilha que roda de vez em quando no iPod é a de Ascensor para o Cadafalso, ótimo suspense de Louis Malle. A música é de Miles Davis, que a gravou com músicos franceses e com o baterista Kenny Clarke. Mas a que roda mais é a de A Firma, outro bom suspense, estrelado por Tom Cruise (talvez o último realmente bom filme feito por ele). O disco intercala músicas incidentais (dispensáveis) com faixas apenas com o piano de Dave Grusin.

Falei em iPod, e o meu anda negro como as asas da graúna. Ben L'Oncle Soul, que você me apresentou, rola sempre. Raphael Saadiq, Mayer Hawthorne também. Na semana passada, descobri Aloe Blacc. Manja? Segue na linha dos citados, bebendo forte nos heróis do soul e do rhythm and blues. Me fisgou, embora não saiba se na mesma medida que L'Oncle Soul, por exemplo. O que me chama a atenção, independentemente disso, é a onda vintage em que esses caras surfam -- inclusive nos vídeos, busque algo do Aloe Blacc no Youtube para entender o que estou dizendo. A música negra americana chegou a uma encruzilhada nos últimos anos em que o caminho era fazer babas de amor que matariam qualquer diabético ou fazer cara de mau, deixar o elástico da cueca aparecendo e recitar proibidões. Pombas, esses caras, L'Oncle Soul, Saadiq, Hawthorne, Blacc, todos eles cantam! Sabe lá o que é isso, hoje em dia?

Susan Boyle te manda um beijo,

Rafael, candidato ao America's Got Talent

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Comandante,

Macca garantido, ainda bem. Será histórico.

Usar sensacional para Lloyd Webber pode ser um reflexo do meu perfil iniciante no mundo dos musicais. Ok, ficamos com o muito legal. Sim, é farofa, é brega, All I Ask of You é a confirmação disso. Conheço Stephen Sondheim apenas de nome, mas vou atrás.

Vamos lá, o Air é um dup pop francês com pé no eletrônico, nas viagens progressivas do passado, nas trilhas sonoras e até em algo... new age. É interessante, é envolvente. Tem a coisa da música de clima, que traz algo mais viajante mesmo, fica no ar. Por enquanto estou no Moon Safari, de 98, o mais badalado deles, e no Talkie Walkie, de 2004, disco que tem a pérola que citei na carta anterior, Alone in Kyoto, que foi trilha de Encontros e Desencontros, filme com Bill Murray e a - bela - Scarlett Johansson.

Como foi Cats?

Você perguntou dos musicais e agora é minha vez: e as trilhas de filmes?

Grande abraço,

Ferdinando

ps.: acabo de pescar um recado, na caixa postal do celular, de meu pai dizendo que está com ingressos para Jazz Orchestra of Concertgebouw, hoje.

sábado, 16 de outubro de 2010

Queridão,

Já gostei mais de Maria Gadú. Mas o excesso de exposição lhe foi pernicioso. E logo com Shimabalaiê, que é a música mais sem graça do disco. Lembro-me que isso aconteceu com Sozinho, composição de Peninha cantada por... Caetano Veloso (e eis que voltamos ao homem!). Era ligar o rádio e: "Às vezes no silêncio da noite..." Abrir a geladeira e: "... eu fico imaginando nós dois..." Tirar o telefone do gancho e: "... eu fico ali sonhando acordado..." Aaaaaaaaarrrrgh. Não há apreço pela música que resista a isso. Comecei a pegar uma certa birra que se estendeu para o resto do disco. Nunca mais escutei. Talvez seja um bom momento de soprar a poeira do disquinho e colocar pra rodar. Quanto às comparações com Cássia, hum... há uma semelhança, mas eu não diria que há um parentesco. É tão semelhante quanto, sei lá, Capital Inicial e Barão Vermelho podem ser semelhantes. A verdade é que nego começa a traçar paralelos porque as duas põem (no caso de Cássia, punha, no passado) banca de homenzinho.

Respondendo à sua pergunta rapidamente: não conheço nada de Air. O que me diz?

Conheci The Bad Plus num show no (lamentavelmente) extinto Mistura Fina. Dei a sorte de vê-los duas vezes: uma em sua formação tradicional, apenas com Reid Anderson (baixo), Ethan Iverson (piano) e David King (bateria), e outra com a adição de uma cantora muito peculiar, Wendy Lewis. Recomendo a audição, mas aviso logo: não é música para colocar para tocar e sair para cozinhar ou para ler jornal. Ponha para tocar alto e deite no chão. Ou meta um fone nas orelhas. Comece por Prog, disco que tem covers de Everybody Wants to Rule the World, do Tears for Fears, Life on Mars?, do David Bowie, e Tom Sawyer, do... Rush, de que você tanto gosta. Passe para For All I Care, o álbum no qual eles contam com a participação de Wendy Lewis. Atenção para a altamente lisérgica versão de Confortably Numb, do Pink Floyd. Desculpe se cito apenas os covers. Mas é a melhor maneira de ser fisgado para o mundo do The Bad Plus, para suas composições próprias. Aliás, vejo no site oficial que eles estão lançando o primeiro disco só com músicas originais. Ueba.

Do biscoito fino do experimentalismo para Andrew Lloyd Webber, que, sinto discordar, não é sensacional. É a farofa da Broadway, o Bon Jovi dos musicais. O que não significa que não possa ser legal. Pode, e muito. O Fantasma da Ópera é legal. Mas sensacional é um adjetivo que eu reservaria a Stephen Sondheim, por exemplo. Você viu Gypsy? Se não, e se estiver em São Paulo nos próximos dias, vá ver. Se não estiver em São Paulo, baixe a trilha sonora de uma das versões estrangeiras. Escute Rosie's Turn, a apoteótica música que encerra o espetáculo. E depois conversamos.

Ainda falando sobre musicais, na semana passada bateu na minha caixa de e-mails o release de Hair, nova produção de Charles Möeller e Claudio Botelho. Estreia dia 5. Estou ansiosíssimo para ouvir "this is the dawning of the age of Aquarius, the age of aquariuuuuuuuuus!" O que esses caras fizeram pelos musicais no Brasil não tem preço. Soube que Botelho fez, ao mesmo tempo (!), as versões de Hair e de Mamma Mia!, que vai estrear em São Paulo. É muito peito. E o pior (melhor, na verdade) é que provavelmente saiu bom. É o melhor versionista em atividade hoje no país. Poderia ser cabotino e dizer que falta concorrência, aí é fácil, mas acho que ele seria mesmo com mais gente no ramo.

Hoje verei Cats. Na segunda, verei os holandeses da Jazz Orchestra of the Concertgebouw. Trago impressões.

Garantiu seu ingresso pro Macca? Eu perdi.

Bração,